sábado, 21 de março de 2009

Afinidade

A afinidade não é o mais brilhante, mas o mais sutil,

delicado e penetrante dos sentimentos.

O mais independente.

Não importa o tempo, a ausência, os adiamentos,

as distâncias, as impossibilidades.

Quando há afinidade, qualquer reencontro retoma a relação,

o diálogo, a conversa, o afeto, no exato ponto em que foi interrompido.

Afinidade é não haver tempo mediando a vida.

É uma vitória do adivinhado sobre o real.

Do subjetivo sobre o objetivo.

Do permanente sobre o passageiro.

Do básico sobre o superficial.

Ter afinidade é muito raro.

Mas quando existe não precisa de códigos verbais para se manifestar.

Existia antes do conhecimento, irradia durante e permanece depois

que as pessoas deixaram de estar juntas.

O que você tem dificuldade de expressar a um não afim, sai simples

e claro diante de alguém com quem você tem afinidade.

Afinidade é ficar longe pensando parecido a respeito dos mesmos

fatos que impressionam, comovem ou mobilizam.

É ficar conversando sem trocar palavra.

É receber o que vem do outro com aceitação anterior ao entendimento.

Afinidade é sentir com.

Nem sentir contra, nem sentir para, nem sentir por, nem sentir pelo.

Quanta gente ama loucamente, mas sente contra o ser amado.

Quantos amam e sentem para o ser amado, não para eles próprios.

Sentir com é não ter necessidade de explicar o que está sentindo.

É olhar e perceber.

É mais calar do que falar.

Ou quando é falar, jamais explicar, apenas afirmar.

Afinidade é jamais sentir por.

Quem sente por, confunde afinidade com masoquismo.

Mas quem sente com, avalia sem se contaminar.

Compreende sem ocupar o lugar do outro.

Aceita para poder questionar.

Quem não tem afinidade, questiona por não aceitar.

Só entra em relação rica e saudável com o outro,

quem aceita para poder questionar.

Não sei se sou claro: quem aceita para poder questionar,

não nega ao outro a possibilidade de ser o que é, como é, da maneira que é.

E, aceitando-o, aí sim, pode questionar, até duramente, se for o caso.

Isso é afinidade.

Mas o habitual é vermos alguém questionar porque não aceita

o outro como ele é. Por isso, aliás, questiona.

Questionamento de afins, eis a (in)fluência.

Questionamento de não afins, eis a guerra.

A afinidade não precisa do amor. Pode existir com ou sem ele.

Independente dele. A quilômetros de distância.

Na maneira de falar, de escrever, de andar, de respirar.

Há afinidade por pessoas a quem apenas vemos passar,

por vizinhos com quem nunca falamos e de quem nada sabemos.

Há afinidade com pessoas de outros continentes a quem nunca vemos,

veremos ou falaremos.

Quem pode afirmar que, durante o sono, fluidos nossos não saem

para buscar sintomas com pessoas distantes,

com amigos a quem não vemos, com amores latentes,

com irmãos do não vivido?

A afinidade é singular, discreta e independente,

porque não precisa do tempo para existir.

Vinte anos sem ver aquela pessoa com quem se estabeleceu

o vínculo da afinidade!

No dia em que a vir de novo, você vai prosseguir a relação

exatamente do ponto em que parou.

Afinidade é a adivinhação de essências não conhecidas

nem pelas pessoas que as tem.

Por prescindir do tempo e ser a ele superior,

a afinidade vence a morte, porque cada um de nós traz afinidades

ancestrais com a experiência da espécie no inconsciente.

Ela se prolonga nas células dos que nascem de nós,

para encontrar sintonias futuras nas quais estaremos presentes.

Sensível é a afinidade.

É exigente, apenas de que as pessoas evoluam parecido.

Que a erosão, amadurecimento ou aperfeiçoamento sejam do mesmo grau,

porque o que define a afinidade é a sua existência também depois.

Aquele ou aquela de quem você foi tão amigo ou amado, e anos depois

encontra com saudade ou alegria, mas percebe que não vai conseguir

restituir o clima afetivo de antes,

é alguém com quem a afinidade foi temporária.

E afinidade real não é temporária. É supratemporal.

Nada mais doloroso que contemplar afinidade morta,

ou a ilusão de que as vivências daquela época eram afinidade.

A pessoa mudou, transformou-se por outros meios.

A vida passou por ela e fez tempestades, chuvas,

plantios de resultado diverso.

Afinidade é ter perdas semelhantes e iguais esperanças,

é conversar no silêncio, tanto das possibilidades exercidas,

quantos das impossibilidades vividas.

Afinidade é retomar a relação do ponto em que parou,

sem lamentar o tempo da separação.

Porque tempo e separação nunca existiram.

Foram apenas a oportunidade dada (tirada) pela vida,

para que a maturação comum pudesse se dar.

E para que cada pessoa pudesse e possa ser, cada vez mais,

a expressão do outro sob a forma ampliada e

refletida do eu individual aprimorado.

- Arthur da Távola -

(Ilustração: Mônica e Cebolinha)

Um comentário:

Juju disse...

adorei, beijos saudadaes de vc